quinta-feira, 13 de agosto de 2009

As novas inscrições do sofrimento da criança

Eric Laurent

Não estamos tão longe do momento em que ocorreu em Angers um processo histórico, verdadeiro fato de sociedade. Foi com efeito em abril de 2006 que se abria uma espécie de mega processo que incidia sobre os atos de pedofilia e de prostituição de crianças praticados pelos próprios pais. A realização incestuosa impressionava por seu caráter serial e pela idade das vítimas, 65 acusados e 40 crianças se achavam confrontados. O que aumentava a particularidade deste fato de sociedade é que os serviços sociais e a justiça sabiam e não sabiam a que eram submetidas as crianças, e se achavam impotentes para reagir[2]. Entrava-se numa zona em que ao mesmo tempo se sabia e não se sabia. Um magistrado responsável podia declarar “Talvez eu vá chocar, mas não era um dossier prioritário. O mais urgente é quando a vítima ainda está em contato com o agressor. E as descrições físicas, eu tinha uma meia dúzia por semana sobre minha mesa. Em matéria de pedofilia, tem-se um fusil com um tiro: se a prisão preventiva não dá nada, danou-se. E J. sempre negou”[3]. Havia algo de horrível que acontecia e que não entrava no discurso corrente.

Diante deste lugar estranho que ocupavam as crianças vítimas, lugar pouco identificável, no qual o aparelho dito de assistência revelava sua falha, a justiça, a posteriori, tentou ainda mais colmatá-la. Como dizia um artigo publicado por um sociólogo naquele momento: “Este processo está aí primeiramente para lembrar que, diante das transgressões que representam o contrário absoluto das regras e dos valores fundamentais do viver junto, a sociedade não pode assegurar sua sobrevivência senão se mobilizando exclusiva e solenemente a partir do ato de punir”[4]. O autor sublinhava, então, o quanto a última proteção do laço social é a punição. Quando não se sabe mais o que fazer, pune-se. Devemos à psicanálise ter reconhecido este ponto. O laço social não é fundado, não é finalmente fundado sobre a justiça distributiva, a solidariedade ou a assistência, mas sobre um ponto último que consiste em punir. A tese freudiana sublinha que toda formação humana comporta em seu horizonte um assassinato que permanece recalcado. No lugar do recalcamento, surge o masoquismo, a vontade de ser punido. Em seu texto “Bate-se numa criança”[5], Freud introduz um masoquismo original, fundamental, cujos desenvolvimentos encontramos em escritos posteriores. Lacan, na seqüência de Freud, recoloca em questão a morte do pai e o masoquismo primário. Para dar conta do masoquismo primário conceitualizado por Freud, ele falará sobretudo da pai-versão.

Entre o laço pai/filho e o masoquismo primário, há uma via de passagem entre o texto freudiano e a releitura que Lacan faz dele.

O Psicanalista entre o Mestre e o Pedagogo

Diana S. Rabinovich

1. Em seu seminário O avesso da psicanálise, Lacan (1969-70) introduz a sua teorização sobre os quatro discursos.

2. Lacan reivindica - frente a uma teoria do discurso que domina as ciências chamadas “humanas” para as quais este é o produto de um sujeito centro, de um sujeito pleno, unitário - a primazia da cadeia significante, cadeia que se desloca além de qualquer sujeito voluntário, consciente, e cuja articulação produz o discurso.

3. O discurso é um modo de uso da linguagem como vínculo. Só há vínculo social naquilo que se designa como discurso, vínculo possível apenas entre seres que falam, os “falasser” – [parlêtres] (Lacan,1971). O discurso não se funda então no sujeito, mas na estrutura da linguagem, e por fim, na [estrutura] do significante.

4. A psicanálise descobre um sujeito cindido, sujeito atravessado pelo desejo e pelo gozo: o sujeito do inconsciente. O inconsciente, nos diz Lacan, está estruturado como uma linguagem, linguagem que se chamará “Falíngua”, diferente de “alíngua”, linguagem atravessada pelo desejo, o gozo e o impossível da sexualidade e da morte (Cf. Miller, J-A 1977).

5. O discurso não é, pois, realidade primeira a ser interpretada em seu sentido, mas efeito da cadeia significante.

6. Lacan continua assim a sua tarefa incessante de descentramento, a sua crítica ao todo, ao centro, à esfera. O movimento dos seminários reintroduz a falta, a descontinuidade, a não complementariedade, a hiância..., torna inútil toda restauração de um centro. O discurso concebido como produto da articulação significante é um discurso sem palavras, que, como tal, gera palavras; é um discurso sem sentido que gera a própria proliferação do sentido.

7. Os quatro discursos são quatro configurações significantes que se diferenciam e se especificam por sua distribuição espacial. Quatro postos fixos, quatro significantes que rodam nesses mesmos postos e que determinam, na sua rotação, a emergência da própria trama discursiva.